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sexta-feira, 31 de julho de 2009

O Circo - por Almapto Anicor

O circo

O mundo é um circo
Cheio das atrações mais maravilhosas.
O nascer e o morrer.
O crescer e o fenecer.
O sol e a lua.
O dia e a noite.
O início e o fim.
A sonho do picadeiro
E a mágica do arco-iris.

Mesmo a mais fina poeira
Contém as maiores aventuras.
A imaginação duma criança,
Que mesmo adulta,
Cria o sol e a lua.
D’um arco-íris
Feito das mais finas partículas
D’ouro e de chuva,
D'água mais pura.
É o sonho do circo
E a mágica da vida.

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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Esta Velha - por Alvaro de Campos

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

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Quem Espera - por Almapto Anicor

Tenho dó de quem espera
Sentado
Deitado
Prostrado

O mundo passa pela janela
A porta fechada
Nunca é aberta

O vento nem pensa
Passa ao longe
Chiando a preguiça alheia

E o tempo passa para quem espera
Sentado ou deitado
Verdadeiramente prostrado

A luz não chega
A escuridão não acolhe
A vida escorre
Pelas mãos
Pelos dedos

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Escrever e Criar - por Almapto Anicor

Quando penso em escrever
E acertar no meu criar
É um frio na barriga
Um medo de errar


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Estou Cansado - por Alvaro de Campos

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

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terça-feira, 21 de julho de 2009

Cinzas e Azuis

Cinzas.
Somos cinzas.
Cinzas perdidas.
Perdidas em azuis...
(reverberantes azuis)
Ecoados em nós
Cinzas e Azuis.
Espalhados em mares.
Cheias ou vazantes
Enchentes cinzas.
Chatos azuis

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Pernas

Tuas pernas passam.
Gozo.
De mim para mim,
Desejo tê-las.

Sua mão gesticula
A boca treme (fala?)
Nada escuto, nada vejo.
Sinto, sinto, sinto...

Sua mão na minha nuca
Quase desmaio.
Que impacto!

Olhos azuis...
Chorosos.
Cabelos curtos...
Quero tuas pernas.

Sua amizade
É minha tristeza.
Quero muito mais...
Sinto, sinto, sinto...

Quero tuas pernas.

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segunda-feira, 20 de julho de 2009

Vivo

Preciso de alguém para conversar
Que me ressucite...
Preciso...
Definitivamente...

Não sei o que é isso
Descarto a possibilidade?
Nem pensar.

Meu tempo é confuso.
Escasso,
Descabido.
Deveria estar vivo...

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